Quando o coração corre mais rápido que o cuidado.
- Luiz Felipe Monsanto Fernandes Alves
- 19 de jan.
- 5 min de leitura
Exercício salva vidas, mas não cria imunidade. Um convite para falar sobre performance, longevidade e o risco silencioso que também acompanha quem treina forte.

Nesta edição do #coraçãoFORTE:
O paradoxo da doença aterosclerótica em atletas de alto rendimento;
A prisão de Nicolás Maduro e o louco "padrão” de consumo.
Quando o coração corre mais rápido que o cuidado
Eu acredito muito no exercício. Mas não acredito em imunidade.
Na última semana, enquanto voltava da São Silvestre (contei um pouco desta logística no último post…), um "novo” grande amigo - aqui vamos apelida-lo de “o Mestre Cervejeiro” me fez uma pergunta interessante… Logo percebi que ela merecia destaque por aqui.
O Mestre me perguntou se a corrida, quando praticada em níveis um pouco mais elevados em termos de volume e treinos, pode causar algum dano ao coração.
Como vocês sabem, eu treino, corro, acompanho atletas todos os dias. E talvez por isso mesmo eu faça questão de dizer algo que nem sempre é confortável: ser atleta não blinda ninguém contra doença cardíaca, e em primeiro lugar temos que ter consciência de que nada produzido em "vitro” é reproduzível.
O que eu quero dizer com isso?
Nenhum exame, isso mesmo,… NENHUM exame é capaz de prever ou zerar o risco de um atleta ter um mal súbito. Isto é… ainda não conseguimos replicar em consultório, clínicas, hospitais,… o que acontecerá com o coração do atleta durante a pratica desportiva. Existe um milhão de variáveis não controláveis que podem desencadear um evento… mas isso pode ser papo para outra edição.
Vamos ao que o Mestre Cervejeiro me perguntou e a resposta é a seguinte:
O esporte, quando em excesso e sem supervisão/orientação adequada, pode sim gerar efeitos deletérios no nosso organismo.
Ele pode sobrecarregar articulações, causar lesões ósseas e claro, danos cardiovasculares. Mesmo assim os benefícios da prática desportiva, superam e MUITO os riscos do sedentarismo.
E isso não é opinião pessoal — os dados são consistentes. Um dos maiores estudos já publicados sobre atividade física no tempo livre, com mais de 650 mil pessoas, mostrou que quem se exercita regularmente tem uma redução de 30 a 40% no risco de morte, incluindo causas cardiovasculares (e há benefício claro em muitas outras causas incluíndo Câncer…). Mesmo volumes elevados de exercício não aumentaram a mortalidade geral.
Mas aí entra a parte que quase ninguém gosta de discutir.
Em quem treina por muitos anos — especialmente esportes de endurance — o corpo aguenta muito. O coração também. Mas as coronárias acumulam história: quilômetros, provas, longões, inflamação repetida e estresse hemodinâmico que podem gerar impacto estrutural nas artérias sem dar sinais clínicos óbvios.
Resumindo… O risco cardíaco é altíssimo em sedentários, cai muito em “fisicamente ativos” e aumenta discretamente em atletas de endurance de alto desempenho.
🏅 Clarence DeMar — A história que sempre merece ser lembrada
Vamos abrir um pequeno “parêntese” aqui para saudar a história de Clarence DeMar, um dos maiores maratonistas da história. Venceu a Maratona de Boston sete vezes, em uma era sem tênis tecnológico ou monitorização sofisticada. Competiu por décadas e virou um ícone de resistência e saúde.

Anos depois de sua morte, aos 70 anos, a avaliação post-mortem revelou aterosclerose coronariana extensa, ou seja suas artérias apresentavam “muitas placas de gordura”, apesar de suas coronárias terem sido descritas como amplamente patentes.
Mesmo apresentando artérias com mais placas de ateroma e serem mais calcificadas, as artérias de atletas como DeMar são mais calibrosas e possuem uma “capa” mais espessa que às protege de rotura.
ahhhh… antes de mais nada…: DeMar morreu de câncer, não de doença cardíaca ou durante uma corrida.
Esse episódio histórico não desvaloriza o exercício — ele nos lembra que coronárias podem acumular placas ao longo da vida, mesmo em quem treina muito.
Agora vamos voltar às evidências atuais disto tudo…
📊 O paradoxo do exercício e o cálcio coronariano
Ao longo dos últimos anos, estudos com tomografia têm mostrado algo aparentemente contraditório:
✔️ Pessoas com altos níveis de atividade física comumente apresentam maior prevalência de calcificação coronariana (CAC) — que é um marcador de aterosclerose detectado por tomografia.
✔️ Em muitos destes atletas, as placas são predominantemente calcificadas, o que tende a ser mais estável e menos propenso a ruptura do que placas mistas ou não calcificadas.
✔️ Em coortes de atletas veteranos, o CAC positivo (CACS>0) foi encontrado em 34–71% dos participantes, e escores de CAC ≥100 (associados a maior risco) em 11–36% — apesar de ausência de sintomas.
Essa constatação deu origem ao chamado “paradoxo do exercício”:👉 atividade física protege contra eventos cardiovasculares, mas em volumes muito altos e ao longo de muitos anos pode haver aumento de calcificação coronariana detectável. (link do artigo aqui)
É importante entender que a interpretação do CAC não é simples:
Em pessoas com alto condicionamento, um CAC elevado não necessariamente indica um risco equivalente ao de alguém sedentário com o mesmo escore;
Muitos especialistas defendem que a morfologia da placa (mais calcificada e estável) pode ter menor propensão a eventos agudos — um possível efeito adaptativo do exercício intenso.
🧠 Como tudo isso se conecta com a prática clínica atual
Dados recentes reforçam a visão de que:
Atividade física regular é associada à melhora de fatores de risco cardiovascular (pressão, lipídios, glicemia, função endotelial,…), o que reduz drasticamente o risco de eventos.
Um CAC detectável indica aterosclerose coronariana, um marcador de risco prognóstico independente — mesmo em indivíduos assintomáticos.
O CAC pode aumentar com exercício vigoroso de longo prazo, mas isso não significa que o exercício é ruim — pode refletir uma adaptação vascular complexa ou interagir com outros fatores como idade, sexo, genética e história de risco.
🫀 Conclusão #coraçãoFORTE
O exercício continua sendo um dos maiores aliados do coração. Ele reduz mortalidade, melhora condicionamento, e traz benefícios claros para a saúde.
Mas isso não significa que o coração não acumule história com o tempo.E nem todo coração que corre está livre de placa coronariana.
Além disso, aqui estamos discutindo apenas um dos fatores e um dos aspectos de adaptação cardiovascular ao exercício. Prometo falar sobre outros assuntos em breve… mas fica o alerta de que devemos sim, manter nossos exames em dia, estratificar riscos e usar a ciência a nosso favor. Performance também é manter a máquina funcionando.
Cuidar do coração é avaliar, interpretar dados e contextualizar riscos, não escolher entre correr ou não correr.
Treinar forte é importante.Treinar com consciência é o que faz durar. 🫀🏃♂️
Fugindo do assunto agora…
A prisão de Nicolás Maduro e o louco “padrão” de consumo.
Você viu o que aconteceu? Num evento político global sério — a prisão de Nicolás Maduro — o detalhe que viralizou nas redes não foi discurso, bandeira ou ideologia: foi a roupa que ele estava usando. A foto dele algemado, vendado e vestido com um conjunto da Nike (linha Tech Fleece) disparou as buscas pela peça no mundo inteiro e até fez o modelo esgotar em vários tamanhos online.

Isso diz muito sobre como a gente consome informação e produtos hoje.
Em vez de focar no contexto histórico ou nas implicações políticas, o público digital “capturou” um ícone visual — e de repente todo mundo quer “comprar o look do momento”. Algumas pessoas estão inclusive apelidando o traje de “Maduro Grey”

É um exemplo poderoso de como a cultura pop transforma qualquer imagem em mercadoria e de como o consumo moderno é guiado por memes, curiosidade e viralização, não necessariamente por necessidade ou significado profundo. Em tempos de internet, até a roupa de um preso pode virar tendência — e isso nos faz pensar: o que realmente importa no que escolhemos consumir?
Bom pessoal, espero que estejam gostando de mais uma edição do "#coraçãoFORTE.
Se achou interessante e gostou do formato, manda pra mim ou posta aquele stories tomando um café (sem açucar) no café da manhã"! hahaha eu vou adorar!
Um forte abraço, de coração,
— MONSANTO
Pensamentos, ciência e vida real. Direto no seu e-mail. #CoraçãoForte.




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